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Leia aqui, em exclusivo, uma parte do livro de Miguel Angelo, dedicada ao ano de 1985 e veja ainda uma galeria com fotografias que não foram incluídas no livro.
MIGUEL ANGELO
UM LUGAR AO SOL
1985: o ano de todos os perigos? A carreira dos Delfins seria sempre
assim, como já se disse, azougada por possibilidades infinitas e alheia a
preconceitos ou ideias feitas sobre os passos que podem ser dados. Tínhamos
a ambição de quebrar barreiras, provocar o estabelecido e também “gozar
o prato”. Início do ano e a Fundação Atlântica apresenta -nos uma proposta
indecente: a ida ao Festival da Canção. Que raio? Uma investida naquele
território que tanto criticávamos? Na generalidade não ouvia música ligeira
- se bem que me atraísse outra mais antiga, como aquela servida pelo
génio de poetas como o Ary dos Santos ou David Mourão-Ferreira. A ida
ao Festival teria de ser encarada como um acto de guerrilha. Vários factores
foram determinantes para que depois de algumas discussões tivéssemos
aceitado participar: 1.º que o Regulamento do Festival, excepcionalmente
nesse ano, permitisse que cada editora nacional escolhesse o seu artista e a
sua canção sem qualquer espécie de censura ou aprovação prévia da RTP;
2.º que à altura o Festival RTP da Canção tivesse quase 4 milhões de pessoas
a assistir; 3.º que assim poderíamos gravar e lançar rapidamente um segundo
single, agora um tema original, para seguir rapidamente na senda do êxito
de O Vento Mudou. Houve ainda outro que na altura desconhecíamos e não
equacionámos: um óptimo jantar pago pela editora no Gambrinus, mesmo
ali ao lado do Coliseu, onde compreensivelmente nunca entráramos. E rapidamente gravámos
A Casa da Praia e rapidamente fomos tirar mais umas fotos com as camisas
de riscas no estúdio do Luís Vasconcelos, que era tio do Ricardo e pai da
artista Joana Vasconcelos e rapidamente o Rui Pregal da Cunha, cantor
dos Heróis do Mar, fez uma nova farpela pintada à mão para combinar com
os Ray-Ban Wayfarer que tinham sido vítimas de um ataque de spray de
tinta branca... Rápido como a pop.
Jantar bem regado antes da actuação sobre playback instrumental -
houve manifestação do Sindicato dos Músicos às Portas de Santo Antão
com tabuletas pintadas - e foram precisos só 3 minutos até que o M.E.C.
se levantasse numa das primeiras filas a gritar Bravo!... É certo que a nossa
ida ao Festival era vista por alguns como uma provocação, no mínimo
introduzindo um estilo musical diferente naquele que era o bastião da
música ligeira nacional. Dizíamos que queríamos o 1.º ou o último lugar
e estávamos a ser honestos. Acabámos por conseguir alcançar o último -
ainda estivemos em pânico durante alguns minutos ao sermos “ultrapassados”
por um cantor madeirense que rapidamente voltou ao penúltimo
lugar... Era uma tomada de posição e pelo menos o semanário Se7e, o
jornal referência de artes e espectáculos, tinha-o percebido: convidou-nos
para a sua festa, juntamente com a Adelaide Ferreira que se classificou na
ponta oposta da tabela. Quinze dias depois, paradoxalmente, estávamos
de volta ao palco do Coliseu para participarmos no Dia do Estudante ao
lado dos Heróis do Mar, Rádio Macau, Jorge Palma, Kutchi-Kutchi e
Serafim Saudade, uma das personagens de Herman José.
Foi contudo o chamado pau de dois bicos: a franja festivaleira afastou-
-nos, ofendida e o nosso potencial público estranhou, não tendo a mensagem
passado da melhor forma. Era ambicioso, querer mudar assim tudo
de uma vez, virar o Festival ao contrário para ver o que caía dos bolsos.
Mas era o espírito de então e o espírito diz -se, não deve ser contrariado
(ou serão os loucos?).
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